Texto de Sofia Freitas Silva.
No livro A Distinção, Pierre Bourdieu analisa o gosto a partir de um ponto de vista sociológico. Contrariando a famosa máxima “gosto não se discute”, o sociólogo faz uma análise da formação do gosto de cada classe e de como essas preferências são símbolos de poder. O gosto considerado legítimo é aquele pertencente a uma classe mais alta, que se utiliza justamente da diferença de seus gostos para os de outras classes para diferenciar-se delas, considerando-se – e sendo considerada – superior. Ou seja, os gostos são uma das maneiras de marcar a distinção entre cada classe. Daí o nome do livro.
No capítulo 1, o autor se dedica a relacionar os gostos de cada classe (e fração de classe – como veremos, há distinções mesmo dentro de cada classe) com seu capital escolar (determinado pelos diplomas) e com sua origem. Para fazer essas análises – nesse e nos outros capítulos do livro – o autor aplicou um questionário com diversas perguntas sobre preferências várias a diversas pessoas de diferentes classes. No início do capítulo, o “gosto” analisado pelo autor é o musical. Ele chega à conclusão de que o gosto considerado popular é inversamente proporcional ao acúmulo de capital escolar. Em outras palavras: quanto mais anos de estudo, mais uma pessoa se distancia do gosto popular, para adquirir um gosto legítimo em relação à música. Não só ela passa a apreciar mais compositores menos populares como também o conhecimento do nome de compositores aumenta substancialmente. O gosto musical, ainda mais que outros, sofre muita variação a depender da diferença de anos de estudo, visto que este é um dos campos do conhecimento considerado mais legítimo. Ressalte-se, no entanto, que as áreas também são hierarquizadas. Ex: o conhecimento de música clássica e de pintura é um conhecimento legítimo, o conhecimento sobre jazz e quadrinhos, em vias de legitimação.
Em seguida, o autor analisa qual a relação entre esse capital escolar e o capital familiar herdado. Ele chega à conclusão de que os títulos escolares servem para referendar o capital cultural herdado. Ou seja, os diplomas escolares asseguram a nobreza cultural, valorizando o capital cultural de uma classe mais alta e estigmatizando aquele de uma classe mais baixa. Dessa forma, a escola não influencia somente nos gostos diretamente ligados ao mundo escolar, mas em toda a vida cultural de uma pessoa. E não só influencia como também garante competências culturais muito maiores do que as ensinadas na escola. Esse mecanismo funciona da seguinte forma: um título de graduação em Direito confere a alguém não somente a habilidade de lidar com os meandros da lei e da justiça, mas também uma aptidão cultural (chamada pelo autor de disposição estética) específica, compatível com sua classe. A pessoa, então, se sente obrigada a realmente corresponder a essa aptidão que, pressupõe-se, o título lhe garante. Dessa forma, a escola influencia e certifica determinadas características culturais não somente ligadas às matérias escolares, mas também à música, ao teatro, à literatura, dentre outras manifestações culturais.
Já que o autor afirma que os diplomas culturais conferem certa disposição estética, ele passa então a analisar qual seria essa disposição estética. Dessa vez, utilizando como elemento cultural a fotografia, o autor pergunta a membros de diferentes classes quais imagens dentre as citadas (ou mostradas) por ele dariam uma boa foto. Ele também mostra algumas fotos a essas pessoas e pede a elas para comentarem tais retratos. O autor chega à conclusão de que tal disposição estética conferida pela instituição escolar, e considerada legítima, é a percepção da forma como superior ao conteúdo. As classes populares veem a arte como continuação da vida, ao passo que as classes mais altas apreciam a experimentação formal. Essa é inclusive uma clara forma de distanciamento em relação às classes populares. Estas afirmam não compreender as experimentações formais. É como se fosse necessário ser iniciado em tal arte para compreendê-la e apreciá-la desde um ponto de vista puramente formal.
Como para a classe burguesa (classe mais alta) o importante é a forma, e não o conteúdo ou a função da obra de arte, segue-se que para eles não há nada universalmente belo. O mesmo elemento pode gerar uma obra de arte (no caso, fotografia) feia ou bela, a depender da forma como a foto foi feita. Bourdieu afirma que tal disposição estética depende de alguns fatores. Um deles é a competência artística, adquirida pela aprendizagem ou pelo contato direto com as obras. O outro é certo distanciamento das necessidades mundanas, típico das classes burguesas, mais abastadas. A disposição estética pressupõe um distanciamento do mundo material, possível somente para quem não possui (ou possui poucas) necessidades urgentes, de ordem prática.
Prosseguindo, o sociólogo analisa esse senso estético como senso da distinção, como já antecipamos no primeiro parágrafo deste resumo. O gosto é algo que faz com que os membros de uma mesma classe se identifiquem, devido à unidade (ou semelhança) de seus interesses. Simultaneamente, ele afasta os membros de outras classes, que não compartilham dos mesmos interesses. E esse gosto passa a ser visto com algo natural daquela classe, uma diferença natural e intransponível. Ele se torna habitus. “É a velha história do “gosto não se discute”. É como se tivéssemos nascido com determinados gostos, ou que eles fossem algo que surgisse espontaneamente em cada um. Eles jamais são vistos como fruto de uma construção social.
Há, portanto, um ciclo que se instala: as classes se identificam por seus gostos em comum, e, então, esses gostos passam a ser marca daquela classe, de forma que aqueles que a ela pertencem ou nela ingressem posteriormente valorizam esse gosto e passam a detê-lo. De modo geral, as classes altas são as detentoras da cultura legítima, as médias aspiram possuir o gosto da classe alta, mas encontram barreiras, e as classes baixas opõem-se ao gosto das altas. Essa oposição entre os gostos das classes alta e baixa é fruto de uma intenção clara de distinção entre elas.
Após analisar o senso de distinção, o autor investiga as diferenças culturais nos casos de pessoas de capital escolar equivalente. Nesse caso, passa a contar um segundo fator: a origem social da pessoa. Dentro da classe alta, a fração de classe mais alta é aquela que já nasceu em berço burguês, que possui familiaridade com a cultura legítima. Essas pessoas se opõem a aquelas que adquiriram o conhecimento da cultura legítima apenas por meio da escola e, portanto, são detentoras de um saber mais livresco e tendem a fazer investimentos culturais mais clássicos. Ou seja, respeitam mais o conhecimento clássico, escolar, ao invés da cultura livre, experimental.
Portanto, pode-se dizer que, no caso de capital escolar equivalente, a marca de distinção passa a ser o modo de aquisição da cultura. Segundo o autor, há alguns gostos que são inclusive mais ligados à origem social do que ao capital escolar, como o caso de mobília e vestuário, muito mais relacionados a percepções vindas desde a infância do que a aprendizagem nos livros escolares.
Como dito anteriormente, a escola tende a referendar o capital já herdado pela classe alta. Portanto, parte do capital de pessoas da classe média ou de frações mais baixas da classe alta nunca vem a ser aprovado pela cultura legítima. Nesse contexto, muitos buscam domínios diferentes de investimento cultural, domínios menos legítimos, como o jazz. O autor afirma que esses autodidatas da nova geração são bem diferentes dos autodidatas clássicos. Ao passo que estes reverenciavam e buscavam sempre a aprovação da cultura legítima, aqueles se desiludiram dela e mantêm uma posição de liberdade em relação a ela, buscando outros domínios de aplicação do seu capital cultural.
Além do acúmulo de capital, fator relevante de distinção é o senso de aplicação desse mesmo capital. Esse senso de aplicação constitui-se de modo quase inconsciente, que leva a pessoa a agir da maneira mais legítima quase como se isso fosse sua segunda natureza. Justamente por isso as pesquisas feitas por Bourdieu analisavam não somente os dados objetivos de conhecimento dos entrevistados, mas também o modo de fala, de vestimenta, o sotaque, as estratégias usadas para simular um conhecimento maior do que aquele que se tem. Pequenos detalhes que determinam não somente o capital acumulado, mas a relação que a pessoa estabelece com ele.
Em suma, o capítulo primeiro faz as vezes de apresentação do tema do livro, e de lançamento das premissas base: o gosto não é natural, mas sim naturalizado, como meio de distinção de uma classe em relação a outra. Ou seja, o gosto não é algo inato, mas sim mais um – e talvez um dos principais – símbolo de poder, de identificação com os semelhantes e exclusão dos que não pertencem ao mesmo grupo